ELENCO, de aloysio de oliveira
[ GALERIA DE CAPAS DA ELENCO ]

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SOBRE A ELENCO

O selo Elenco surgiu em 1963, fundado por Aloysio de Oliveira, que conhecia todos os principais personagens da bossa nova e já havia trabalhado nas gravadoras Odeon e Philips. O conceito gráfico das capas, desenvolvido pelo designer Cesar Villela com o fotógrafo Chico Pereira, foi algo totalmente inovador para a época e gerou inúmeros imitadores, além de ter sido uma estética que ficou profundamente ligada à bossa nova. Os vinis originais da Elenco são raríssimos e caríssimos. Alguns discos foram relançados em CD com a capa original, mas já estão fora de catálogo. Outros nem isso.

SOBRE ALOYSIO DE OLIVEIRA

Produtor, cantor, compositor e narrador carioca, Aloysio de Oliveira formou-se dentista, mas nunca chegou a exercer a profissão. Desde pequeno, teve forte relação com a música. Ainda adolescente, em 1929, integrou o Bando da Lua e já em 1931 o grupo gravava seu primeiro disco de 78 rpm, no qual Aloysio cantava numa das duas faixas, o samba “Tá de Mona” (Mazinho/ Maércio). Mais tarde, em 39, viajou para os Estados Unidos com seu grupo para acompanhar Carmen Miranda (com quem também teve um romance). Na década de 40, começou a trabalhar com Walt Disney em trilhas sonoras como consultor (ajudou a criar o personagem Zé Carioca), narrador de documentários e dublador de desenhos animados (as falas de Peter Pan e Capitão Gancho são dele). Em "Alô, Amigos", de 1943, ele cantou “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso). Em “Você já Foi à Bahia?” participou como ator e da trilha sonora. Além disso, dirigiu o Bando da Lua em sua nova fase, de 1949 até seu término, seis anos depois, ocasionado pela morte da Pequena Notável, em agosto de 55. Voltou ao Brasil em 1956, onde empregou-se como diretor artístico da gravadora Odeon e atuou na Rádio Mayrink Veiga, com Aurora Miranda e Vadico. Em 1959, foi responsável pelo lançamento do LP “Chega de Saudade”, de João Gilberto, marco da bossa nova. No ano seguinte, transferiu-se da Odeon para a Philips, permanecendo lá por oito meses. Em 1963 casou-se com Sílvia Telles, cantora lançada por ele e de quem produziu discos, e fundou a gravadora Elenco, especializada em discos de alta qualidade artística. Lançou diversos artistas em discos solo, como Edu Lobo, Nara Leão, Nana Caymmi, Vinicius de Moraes (como cantor) – aliás o primeiro LP da Elenco foi “Vincius & Odete Lara” – além de produzir álbuns antológicos, como “Caymmi Visita Tom”, “Vincius & Caymmi no Zum Zum”, “Edu & Bethânia”, “Maysa” (ao vivo no Au Bon Gourmet), entre outros. Foi ainda nos anos 60 que Aloysio compôs diversas canções célebres em parceria com Tom Jobim, como “Dindi”, “Só Tinha de Ser com Você”, “Inútil Paisagem”, “Eu Preciso de Você”, entre outras. Em 68, quando a Elenco foi extinta, voltou aos EUA, onde produziu discos de artistas brasileiros na Warner. Voltou ao país em 1972, atuando como produtor musical em diversas gravadoras, como Odeon, RCA Victor e Som Livre. Onze anos depois, publicou o livro de memórias “De Banda pra Lua” (Ed. Record). Morreu em Los Angeles, onde residia nos últimos anos de vida, aos 80 anos, em 1995.

(texto sobre aloysio de oliveira tirado de www.cliquemusic.com.br)

SOBRE ESSE SITE

Esse site foi feito por Ronaldo Evangelista sem nenhuma intenção comercial. As imagens foram compiladas pela internet. Agradecimentos a Gregory Flores, Augusto Troncoso e Jim Thompson pelas várias imagens cedidas. Agradecimentos aos sites www.sombras.com.br e www.cliquemusic.com.br pelas informações e imagens. Estão no site também alguns textos do Ruy Castro sobre a Elenco publicados originalmente no jornal O Estado de São Paulo. Apenas esses textos estão aqui porque foram os únicos textos sobre a Elenco encontrados pela internet. Se eu estou quebrando alguma lei de copyright ou violando os direitos de alguém, me desculpe, por favor não me processe, é só entrar em contato, não tenho interesse algum em prejudicar ninguém. Sugestões são bem-vindas, informações a respeito da Elenco, bossa nova, capas de discos e quaisquer assuntos bacanas também. Para saber mais sobre mim, o site ou a Elenco e/ou para ficar sabendo quando o site for atualizado, entre em contato.

 

TEXTOS DO RUY CASTRO SOBRE A ELENCO EXTRAÍDOS DO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO

O primeiro selo fonográfico brasileiro a ter uma política visual (talvez por ser minúsculo e por toda a sua produção ser dirigida para a bossa nova e o jazz) foi a Elenco. Numa parede de loja coberta por discos de todas as marcas, era possível reconhecer uma capa da Elenco mesmo que se estivesse do outro lado da rua. Eram sempre em preto-e-branco, com uma foto (nota: o fotógrafo da Elenco era Chico Pereira) ou desenho em alto contraste e um único e discreto elemento em vermelho. Não é preciso dizer que seu criador, César Villela, chegou a essa solução por motivos econômicos - a Elenco não tinha dinheiro para capas em quatro cores. Mas, o que lhe faltou em dinheiro, Villela compensou em criatividade.
As capas da Elenco tornaram-se uma espécie de marca da bossa nova e a idéia do alto contraste passou a ser adotada ou adaptada por outras gravadoras quando lançavam discos do gênero. Ou, então, para fugir radicalmente a esse visual, outros selos criaram soluções próprias, como a Forma de Roberto Quartin, com seus retratos a óleo dos artistas, ou a Odeon, com a sua fartura de cores. Nunca as capas de discos nacionais foram tão criativas como naquela época.
Ruy Castro, O Estado de São Paulo, 17 de Outubro de 1998

Em 1962, Aloysio de Oliveira, convertido de corpo e alma à bossa nova, deixara a Philips e fundara o seu minúsculo selo Elenco, lançando Tom Jobim, Nara Leão, Roberto Menescal, Vinícius de Morais, Edu Lobo, Baden Powell, o Quarteto em Cy e todos os bossa-novistas possíveis. Em 1967, Aloysio vendeu para a Philips o seu miraculoso acervo de quase 50 LPs gravados. E esse acervo - até hoje, mais de 30 anos depois - continua sendo canibalizado pelos sucedâneos da Philips (a Polygram e, agora, a Universal) em antologias, coletâneas e "especiais", em toda espécie de formato, no Brasil e no exterior.
Ruy Castro, O Estado de São Paulo, 7 de Junho de 1999

O HOMEM QUE MODERNIZOU AS CAPAS DOS LPs
O artista gráfico carioca Cesar Villela transportou para os discos da Elenco a limpeza e simplicidade da bossa nova e, com isso, mudou o conceito do invólucro no Brasil

Há 40 anos, quando o Brasil passava por uma série de modernizações, houve uma que, à sua maneira, silenciosa e cool, atingiu a percepção com o mesmo impacto provocado pela arquitetura, pela música popular ou pelo teatro. Foi a modernização gráfica: o novo visual dos jornais, revistas, anúncios e capas de livros e discos produzidos aqui entre 1958 e 1962. Diante deles, até os mais distraídos sentiam que as coisas estavam mudando - e para melhor.

Os destaques dessa modernização eram o novo Jornal do Brasil, com sua reforma gráfica e jornalística liderada por Janio de Freitas; a revista Senhor, com direção de arte de Carlos Scliar e Glauco Rodrigues; os anúncios da Volkswagen e do Banco Nacional; as capas dos livros da Civilização Brasileira, boladas por Eugenio Hirsch, e os da Editora do Autor, com programação visual da jovem Vea Feitler; e as capas dos LPs do selo Elenco, criadas por Cesar Villela.

O impacto desse novo visual só pode ser avaliado se se souber como era antes. Os jornais, até então, eram uma bagunça gráfica e suas páginas pareciam um coquetel de palavras cruzadas; as revistas, mesmo a maior delas, O Cruzeiro, não diferiam muito das dos anos 40; os anúncios eram de uma cafonice atroz, e não apenas por só falarem de produtos contra caspa ou mau hálito; e as capas dos livros e LPs às vezes usavam ilustrações de artistas importantes, mas não tinham um conceito gráfico, muito menos design. Era tudo excessivo: visual poluído, com mais desenhos do que fotos, e texto rebarbativo, com palavras demais. As páginas não respiravam, a chamada mensagem se perdia.

No caso dos discos, o Brasil já fabricava LPs desde 1951, mas ainda não havia por aqui uma cultura de "capa de disco". Conheciam-se os conceitos básicos: num disco de cantor ou cantora, punha-se a foto do intérprete; num disco de orquestra (ou nos de cantores muito feios), apelava-se para uma paisagem ou para uma modelo. Era raro haver uma integração entre o estilo da capa e o tipo de música gravada no disco. E, como ocorria nos outros veículos, a capa e a contracapa abusavam do direito de asfixiar o comprador com desenhos, fotos, textos, fios, firulas e toda espécie de adornos sem sentido. O desenhista e artista gráfico carioca Cesar Villela surgiu para mudar isso.

Sua revolução se deu nos discos da Elenco, o minúsculo selo dedicado à bossa nova, criado por Aloysio de Oliveira em 1962. Nada podia ser mais "básico" que as capas da Elenco. Eram sempre em preto-e-branco, com um único detalhe vermelho, e mostravam a foto do artista em alto contraste sobre fundo branco. O lettrering era criativo e equilibrado (Cesar usava fotoletras ou, às vezes, desenhava ele próprio as letras com nanquim). As contracapas eram um primor de simetria entre palavras e imagens, com muito espaço em branco, combinando com os textos enxutos de Aloysio e com o tipo de música que ia dentro. "A bossa nova era a simplicidade, a leveza de som e a clarividência musical de seus criadores", diz Cesar. E as capas da Elenco eram exatamente isso, digo eu: modernas, limpas, econômicas, objetivas - como a bossa nova.

Exemplos clássicos, entre outros, são Nara (o primeiro LP de Nara Leão), Antonio Carlos Jobim (aquele em que Tom olha para partituras sobrepostas), Balançamba (com Lúcio Alves), Vinicius & Odette Lara e A Bossa Nova de Roberto Menescal (em que Menescal, vestido de mergulhador, segura um violão). Cesar estabeleceu a programação visual da Elenco, fez cerca de 20 capas (metade do acervo do selo) até 1964 e foi embora para os Estados Unidos. Seus sucessores no Rio respeitaram o seu padrão e, com maior ou menor talento, deram continuidade à "cara" da Elenco - cujos discos podiam ser reconhecidos à distância assim que se entrava numa loja.

Sempre se disse que as capas eram "econômicas" daquele jeito porque a Elenco não tinha dinheiro para investir em cores. A Elenco, de fato, não tinha dinheiro para nada e Cesar nunca recebeu um centavo de Aloysio por nenhuma das capas do selo. Fazia-as por amizade a ele e pelo que aqueles discos representavam (só foi ganhar algum dinheiro com elas agora há pouco, quase 40 anos depois, quando os antigos LPs saíram em CD pela Polygram brasileira e japonesa). Mas sua procura da simplicidade vinha de antes, de 1957, quando já fazia as capas da Odeon para o mesmo Aloysio de Oliveira.

Naquele ano, Cesar tinha 27 anos e era o perfeito autodidata: nunca passara por uma escola de desenho. O que não o impedira de trabalhar em agências de publicidade (como a Standard), no Globo (como ilustrador das crônicas de Elsie Lessa, Henrique Pongetti e outros) e na Careta (substituindo o grande J. Carlos). Aloysio, que o conhecia das rodas musicais, levou-o para a milionária Odeon e entregou-o a seu assistente André Midani, nominalmente o responsável pelas capas dos quase 50 LPs, entre nacionais e estrangeiros, que a Odeon soltava por mês. Midani, que não entendia de capas e sabia disso, deu-lhe carta branca. Cesar, por sua vez, chamou o fotógrafo Chico Pereira, seu ex-colega da Standard, e os dois começaram uma tabelinha que iria mudar tudo.

Na Odeon, havia dinheiro para modelos, cenários, cores, o que eles quisessem. Aloysio tinha comprado a idéia de um designer japonês, de envolver as capas num envelope plástico costurado (chamado estereoplástico), tornando a Odeon brasileira a única gravadora do mundo a usar aquele tipo de embalagem. Para um disco do violonista Bola Sete, Cesar inventou uma capa composta de uma única bola preta impressa e outras seis bolas em cores diferentes, recortadas e soltas dentro do plástico - com o que nunca haveria duas capas "iguais" daquele disco. Deve ter sido a primeira capa "interativa" da História, se é que houve outra.

Mas essas eram as idéias radicais. No geral, a Odeon era conservadora, com um cast de cantores estilo Dalva de Oliveira ou Anysio Silva, donde as capas tinham de ser comportadas. Mesmo assim, Cesar deu-lhes um sentido, além de expurgá-las de qualquer vestígio popularesco. As ousadias ficavam por conta das capas dos discos de Sylvinha Telles, Elza Soares e João Gilberto, os cantores que Aloysio e Midani tentavam impor aos executivos ingleses da gravadora.

Foi de Cesar, por exemplo, a atrevida capa solarizada de O Amor, o Sorriso e a Flor, o segundo LP de João Gilberto (assim como já tinha sido dele a do primeiro LP, Chega de Saudade, no qual não era conveniente inventar muito).

Para um disco em que Ari Barroso interpretava Dorival Caymmi e vice-versa, Cesar brincou com a imagem dos dois, juntando na mesma foto Ari pescando (passatempo de Caymmi) e Caymmi com a camisa do Flamengo (time do qual Ari era o símbolo). Cesar esboçava sua concepção da capa, explicava-a para Chico Pereira e dirigia as fotos. "Nem sempre dava comercialmente certo", diz ele.

"Um disco de orquestra, em que a modelo aparecia com os seios nus, vendeu bem no Rio, mas teve mil devoluções em São Paulo e Minas. O comprador dizia:

`Gostei do disco, mas a patroa não quer essa capa lá em casa.'" A uma média de 40 capas por mês (contando as dos discos estrangeiros, que eram adaptadas aqui), Cesar fez quase 3 mil capas em seis anos de Odeon e ainda teve tempo de produzir para selos menores, esses, sim, de vanguarda, como a Festa, de Irineo Garcia, e a Forma, de Roberto Quartin. Outras capas que marcaram época e também brotaram de seu gênio foram as dos discos do organista Djalma Ferreira para o selo Drink - aquelas famosas, em que a capa, dividida ao meio, se "abria" como uma porta. Quando Aloysio deixou a Odeon e fundou a Elenco, as gravadoras, os lojistas e o público já estavam maduros para as capas que Cesar criaria no novo selo. E outros artistas não demorariam a copiá-las em massa.

"Nos anos 50 e 60, as capas dos LPs tinham de ser criativas e surpreendentes porque as gravadoras ainda não contavam com os shows e com a televisão para promover seus artistas, e elas funcionavam como displays", diz Cesar. "E havia outra vantagem: ao contrário do que acontece hoje, nenhum artista, por mais poderoso, dava palpite na capa de seu disco - só ia vê-la depois de impressa."

Em 1964, a crise fez o mercado encolher e, para piorar, quase todo o pessoal da bossa nova tinha ido trabalhar nos EUA. Cesar resolveu fazer o mesmo.

Juntou seu inglês de ginásio ao seu fabuloso portfólio e se mandou - primeiro para Dallas, Texas, e, depois, Nova York. Tornou-se artista plástico, garantiu seu mercado no meio artístico americano com suas séries de gatos, arlequins e São Sebastiões e nunca mais voltou. Não para trabalhar, pelo menos. Há anos está baseado em Boca Raton, na Flórida. Só não abre mão de passar um ou dois meses por ano no Rio, como agora. Seus amigos da bossa nova - Aloysio Jobim, Chico Pereira, Ronaldo Bôscoli, Nara - já não estão mais entre nós, mas, ao entrar em lugares como, por exemplo, a Toca do Vinicius, em Ipanema, ele olha em torno e vê a sua obra nas paredes.
Ruy Castro, O Estado de São Paulo, 8 de abril de 2000